Início Facebook Site E-mail

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

AL BERTO

Não faria sentido criar um blog e não postar nele os poemas de meus poetas preferidos. Assim sendo, considero que viver uma vida inteira e não ler Al Berto seria algo imperdoável. Ainda que eu tivesse vivido uma vida intensa, cheia de riquezas, delírios e prazeres, se não tivesse conhecido seus poemas, com certeza teria vivido uma vida morna.

Assim como chocolates, vinhos, paixões incontroláveis e as melhores coisas da vida, os poemas de Al Berto me fazem tremer por dentro, se mesclam ao meu oxigênio e cravam as entranhas em meu sangue.  Assim como tudo o que é bom e faz mal, assim como os melhores afrodisíacos catárticos, sei perfeitamente que há um limite além do qual não se pode ir, a menos que se queira viciosamente adoecer. Confesso que ler excessivamente Al Berto se tornou uma compulsão.  Inútil dizer que sempre vou além e chego àquele estado em que a náusea e o tédio, amalgamados em minha alma, singram nos mares da repulsa à vida...


POEMAS DE AL BERTO PIDWELL TAVARES

Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo...


RUMOR DOS FOGOS

Pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes ...



OFÍCIO DE AMAR

Já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e
                                           o remorso...

Um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo.


Corpo
que te seja leve o peso das estrelas e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e ramifica para lá dos alicerces da casa.
Abre a janela debruça-te,deixa que o mar inunde os órgãos do corpo,
espalha lume na ponta dos dedos e toca ao de leve aquilo que deve ser preservado .
Mas olho para as mãos e leio o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo...


... No fim do corpo em que me escondo espalhou-se
A treva onde
Guardo a corola azulínea de tua ausência
E o marulho nítido de um mar que canta
E um calor sísmico nos lábios que beijaste
...
Preparo-me para entreabrir os olhos e
Deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas
E das coisas tristes.


Mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada.
Desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados.
Ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração.


Desejaste um país de silencio
de chuvas salgadas - sem caminhos nem sonhos
tiveste um país sombrio
onde a realidade devorou o delírio e
ficou desabitado - este país nocturno que geme
contra a solidão do corpo - perguntas-te
que espécie de lume cospem os cardos?
Caberá o mar dentro da tua ausência? E o caule
negro dos analgésicos por mim acima... Que cidade
de areia construída grão a grão aparecerá?
Quantas Lisboas estão enterradas? Ou submersas?
O vento traz-te o aroma dos trópicos
dos tamarindos floridos das avenidas e dos fenos
primaveris das planícies - leva-te no alado ácido...


...Imaginaste um país imóvel devorado pelo sol
e o arrepio do canto espalhou-se pelas ruas
a outro tempo igual
a fundo do restaurante o olhar preso em ti
da dama do charuto - café flor do mundo
encruzilhada onde se dorme frente à Europa
apercebida como uma sombra que se afunda
nas veias dos arrumadores de carros
imaginaste que em ti permaneceria
esse barulho metálico de continentes abandonados
enfim
ontem foi o último dia
em que conseguiste calçar-te - essa guerra
que te deixou por sarar
por um túnel de veludo ensanguentado na cabeça.

Vieste dos desertos africanos onde
semeaste tormentos e filhos negros
enrolaste-te agora no pano ardido do tempo
de Lisboa - rasgas em tiras dolorosas o sonho
e tentas navegar pelos sulcos dos mares
mas a saudade pelos que partiram e agora
se aproximam desta voz - vêem
um império de navios vazios
e tu
sob o sol cruel - perdido de olhar em olhar
jogando a vida contra o sujo casco dos cacilheiros
vagueias
pelos becos da voz perdida - ou um corpo qualquer
para fingir o sono junto ao teu.
Mas Lisboa é feita de fios de sangue
de províncias
de esperas diante dos cafés
de vazio sob um céu plúmbeo que ensombra
os jardins de estátuas partidas
há um pressentimento de sono sem fim
refugias-te num quarto de pensão e dormitas
o dia todo - para que Lisboa te esqueça...



Fotos que ilustram os poemas: Hector Olguin e Jean Le Breton.
Pessoas fotografadas: Lionel - Bruna - Cinthia.

Um comentário: