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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MAQUIAGEM NO ANTIGO EGITO




Quando criança, eu queria ser artista, viajante ou antropóloga, mais especificamente egiptóloga... O Egito sempre me fascinou e fez parte das minhas ânsias mais secretas até que, nos meados dos anos 80, eu realizei este sonho de criança e visitei a terra dos faraós... Eu vivia na Alemanha e, de repente, com vontade de fugir do inverno rígido alemão, estava com meu amigo Jens em uma agência de viagem e nos deparamos com vôos tão baratos e acessíveis que não hesitamos entre Verona ou o Cairo... Bem, tantos anos se passaram e ainda parece que foi ontem que eu me perdia nos souks árabes, navegava pelo Nilo, escutava o envolvente e exótico chamado dos minaretes  ou tomava chá com autóctones extremamente corteses... Depois disso eu me formei em francês, em italiano, estudei alemão, tentei falar russo... me tornei maquiadora.... mas o fascínio pela história antiga e pelo Egito continuam me acompanhando vida afora. Então, para matar um pouquinho a saudade e entrar em um clima mais oriental, eu resolvi traduzir estes textos que eu havia selecionado há alguns meses, sobre a maquiagem no antigo Egito. Espero que, assim como eu, vocês apreciem o teor!

HISTÓRIA DA MAQUIAGEM NO ANTIGO EGITO

Inúmeros frascos encontrados nas tumbas egípcias demonstram que os antigos egípcios já manipulavam com maestria pigmentos das cores branca, vermelha, amarela, azul, verde e preta que datam de cerca de 2500 a.C. A composição dos produtos encontrados continha cobre, manganês, chumbo e ferro. A galena natural moída (um dos principais minerais de chumbo) também estava presente em quase todas as preparações das maquiagens de cor preta.
O acréscimo de pós brancos ou sintéticos, como a cerusita, permitia aos egípcios criar uma gama de produtos que ia dos mais diversos tons de cinza ao preto. A textura destes produtos podia ser modificada  com a adição de elementos oleosos.
Os pós verdes e pretos usados durante os rituais egípcios serviam para tratar a pele dos sacerdotes e lhes permitiam ver através do ‘Olho de Hórus’. 


OLHO DE HÓRUS


Nos rituais de embalsamento, as maquiagens possuíam uma ação profilática e terapêutica e contribuíam para a realização do ritual de abertura da boca e dos olhos. 


Papiros médicos prescreviam receitas destinadas ao tratamento de doenças das pálpebras, da íris e da córnea. Misturas compostas de malaquita verde, galena preta, ocre vermelho, lápis lazuli azul eram aplicadas nas pálpebras como colírios.

Pós de cor preta eram feitos à base de chumbo e algumas vezes compostos a partir de óxidos de magnésio ou compostos de antimônio. Ainda hoje a galena está presente na composição dos Kohls empregados no Oriente e na África. As pesquisas permitem atestar que os egípcios sintetizavam alguns produtos e incorporavam propriedades terapêuticas em suas preparações.


A LINGUAGEM DA MAQUIAGEM NO EGITO ANTIGO



A aparência era um elemento essencial no Egito antigo e a cor desempenhava um papel particularmente importante pois era considerada como um ser vivo: o termo ‘youn’ significava ao mesmo tempo “cor” e “o caráter de um ser humano”. É interessante constatar que todos os Egípcios se maquiavam (homens, mulheres, crianças) de todas as classes e funções e a análise química das maquiagens encontradas nos monumentos funerários provou que este povo já possuía um grande domínio da cosmética.

PAPEL ESTÉTICO, TERAPÊUTICO E RELIGIOSO

A maquiagem egípcia era refinada: as formas (traços ou sombreamentos), as matérias (opacas ou cintilantes) e as cores variavam de acordo com as épocas. Fonte de embelezamento, elas também possuíam um valor terapêutico e as maquiagens do Antigo Império eram verdadeiros tratamentos para os olhos e a pele. Os papiros médicos que datam de cerca de 1500 antes de nossa era – particularmente o Papiro Ebers – contém verdadeiras fórmulas utilizadas para proteger os olhos das doenças que existiam na época devido ao clima egípcio, e às enchentes do Nilo. Nas diversas pesquisas feitas sobre este sujeito, os estudiosos identificaram diversas matérias minerais que eram utilizadas no tratamento das vistas, principalmente a malaquita verde e a galena negra.


PAPIRO EBERS
As maquiagens egípcias também estavam associadas ao culto de deuses: amplamente presentes na lista das oferendas funerárias, elas contribuíam para a realização dos rituais que tinham como finalidade preservar os deuses da morte e ressuscitar os defuntos. Este contexto religioso provavelmente levou os egípcios a trabalharem o conteúdo dos cosméticos para transformá-los em verdadeiros medicamentos. Diversos sacerdotes ligados ao culto de Douaou, divindade venerada no Antigo Império, também eram oftalmologistas.

CORES SIMBÓLICAS

A paleta das cores do Egito antigo era amplamente colorida, mas sempre estruturada por um componente simbólico forte: a cor preta e a verde eram as bases sucessivas da maquiagem.

   • Cores Predominantes: o preto e o verde
Desde o início do Império Antigo (2600 à 2200 a.C.), a maquiagem presente na lista das oferendas funerárias era designada pelo termo 'termeouadjou' : "pó verde". Os baixos- relevos policromáticos das mais antigas capelas funerárias mostravam pessoas cujas pálpebras estavam ornadas com largos traços de cor verde: Sépa (grande funcionária que viveu na terceira dinastia) e sua companheira Nésa.

 Cor da natureza, da juventude e do renascimento, o verde é a cor de Osíris, deus da terra, que foi  representado diversas vezes com o rosto verde.

A maquiagem verde, feita à base de malaquita subsistiu até a quarta dinastia e desapareceu dando lugar à maquiagem preta, feita com galena. A cor preta, denominada ‘mesdemet’, teria como origem a expressão “tornar os olhos expressivos” (de mistim ou stim : ‘que torna os olhos eloquentes’), etimologia que sinaliza o fato que as maquiagens egípcias eram, em uma determinada época, pretas. Assim sendo, diversas maquiagens pretas foram encontradas como testemunha deste fato: oferendas funerárias, estátuas e pinturas da época, dentre as quais uma estela egípcia representando a princesa Néfertiabet (2500 A.C.) maquiada com um traço de cor preta no olho.


MALAQUITA 
MALAQUITA
O preto é uma cor que está estreitamente ligada ao Egito. O antigo nome do país ‘KEMET’: a terra negra, vem da palavra ‘km’: ‘preto’, e ‘kmb’ significa ‘os egípcios’. O nome vem do lodo preto, muito fértil, originário do Nilo. Simboliza, na cultura egípcia faraônica, a vida, a fecundidade, o renascimento, a renovação, valores personificados pelas divindades de pele negra e pelos olhos prolongados com uma ‘gota’ do deus de céu e espírito de luz, Hórus, representado por uma cabeça de falcão (animal que possui os olhos naturalmente contornados com a cor preta e uma acuidade visual incomparável).

O olho negro de Hórus é o símbolo da integridade física, da abundância e da fertilidade, da luz e do conhecimento.

Se as maquiagens verdes e pretas predominavam, os Egípcios utilizavam também toda gama de cinzas, graças a pigmentos variados como a cerusita natural que permitia a obtenção de um pó branco que era misturado à galena negra. Outras cores também foram observadas, principalmente a azul e a cor amarela (que não possuía um nome específico no antigo Egito), mas era representada pelo dourado, o ouro, e que era a cor associada à pele dos deuses, às máscaras funerárias e à imortalidade.


GALENA
Os artistas utilizavam principalmente o azul egípcio para representar as peles de certos deuses. Esta cor era a essência divina, por sua associação com o ar, o céu, o meio aquático de onde nasce toda vida. Devemos ressaltar entretanto que muitas vezes a maquiagem representada na pintura e na estatuária egípcia possuía um valor simbólico e  não correspondia à maquiagem real que era usada pelas pessoas.


LÁPIS LAZULI

A MAQUIAGEM DE GRANDE QUALIDADE EXISTIA NO EGITO ANTIGO

Os Egípcios usavam produtos de maquiagem distintos, de acordo com seu status social. Os ricos adquiriam produtos de grande qualidade, como testemunha um hieróglifo descoberto dentro de potes de cosméticos na tumba de Dame Touti, uma bela cortesã egípcia que viveu há 3000 anos. Dame Touti levou para o outro mundo seus cosméticos e acessórios de beleza. Rico ou pobre, cada um possuía pó de galena, um básico indispensável em todo nécessaire de maquiagem. Porém, enquanto o pobre usava simples bastões de madeira para aplicar sua maquiagem, o rico possuía instrumentos mais elaborados e conservava os pós em recipientes de marfim ou estojos de materiais preciosos. Para a viagem após a morte, os egípcios de nível social alto levavam uma  paleta de maquiagem, o nécessaire de toalete e todos os elementos necessários para a fabricação de produtos cosméticos. Mais surpreendente ainda, os pesquisadores conseguiram descobrir que as porcentagens de óleos que entravam na composição dos cosméticos eram as mesmas utilizadas pela cosmetologia moderna. Os Egípcios sabiam também elaborar texturas diferentes, pós soltos finos ou compactos, dosando as matérias oleosas. Misturando mais ou menos finamente alguns de seus ingredientes, eles podiam fabricar pós brilhantes ou, ao contrário, opacos. Como podemos ver, as técnicas de opacidade e de brilho não são um assunto recente!

OS ACESSÓRIOS E OS OBJETOS:

Os diversos cosméticos e ungüentos vinham acondicionados dentro de frascos e eram acompanhados por acessórios variados. Tanto os mais simples quanto os mais detalhadamente decorados testemunham um grande refinamento. Trabalhados finamente, estes objetos eram ornados de motivos de flores de lótus, guirlandas de papiros, de antílopes, de peixes ou de pequenos macacos. Foram encontradas também pequenas paletas, colheres para pegar os pós e os cosméticos, potes de ungüentos, frascos de perfume, estojos de Kohl com pequenos pincéis.
Os recipientes e diversos outros objetos eram feitos de pedra (alabastro translúcido, hematita, diorita, mármore), de cerâmica, de barro, de madeira, de vime ou ainda de marfim. A técnica de fabricação do vidro apareceu apenas no Novo Império. Freqüentemente de cor azul, ele era decorado com  fios vermelhos, verdes, amarelos ou brancos.

Os acessórios destinados aos príncipes e aos reis eram feitos de ouro, de bronze, de ônix. Muitos eram gravados ou incrustados com obsidiana, pedras semi-preciosas, enquanto outros eram de louça. Inicialmente os espelhos eram simples placas de mica e, em seguida, passaram a ser constituídos com discos de cobre ou de bronze polido. A partir do Império Médio eles foram sendo melhorados com a aplicação de uma camada de prata.

 Radiografia de um frasco com cosmético egípcio mostrando, em branco, a importante quantidade de cosmético em pó conservado.
POTES DE KOHL - Estes dois potes de Kohl foram talhados na pedra. Eles foram lacrados com tela e continham galena em pó. Desde a época pré-dinástica, os Egípcios (homens e mulheres) utilizavam cosméticos para proteger os olhos do sol, da poeira e dos insetos. Estes eram fabricados com minerais esmagados ou amassados que eram misturados à água ou a um elemento oleoso. Assim como os unguentos, a maquiagem representava um papel no culto funerário. O bastão de metal possuía uma extremidade com um bojo que permitia aplicar o cosmético em torno dos olhos enquanto que a outra extremidade servia para misturar os ingredientes ou retirá-los. A concha permitia a preparação do cosmético. XVIII dinastia. Museu do Louvre. H: 7.8 et 4 cm.


Diagrama que mostra as porcentagens de galena, cerusita e compostos sintéticos de 28 cosméticos egípcios. Os pós brancos, cinza ou pretos possuíam composições complexas.


O Kohl, era uma sombra escura que era aplicada em torno do olho e proporcionava um olhar profundo aos Egípcios. Ele produto também tratava as infecções oculares através da presença de ... chumbo. Químicos francês do CNRS refizeram a experiência hoje: em baixíssimas doses o chumbo não mata as células, bem ao contrário, ele estimula o sistema imunitário. Os pesquisadores depositaram uma quantidade infinitesimal de cloreto de chumbo em células cutâneas que reagiram emitindo uma super produção de monóxido de azoto, um gás que estimula a chegada dos macrófagos que são capazes de digerir e destruir as bactérias.

PALETA DE PIGMENTOS
Na foto podemos distinguir claramente os lugares reservados para amassar e misturar os pigmentos que servem para fabricar as maquiagens. O pequeno buraco na parte superior provavelmente era usado para facilitar o transporte do estojo. (Período Nagadac: 4.000 – 3.600 a.C.).


Traduzido por KRIS XIVA de: CNRS France – L’histoire des fards

5 comentários:

  1. Kris, o seu trabalho é fantástico!!!! Reune como ninguém duas coisas que eu amo!!!! História e maquiagens....

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  2. Muito legal seu site parabéns!!

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  3. uma matéria bastante interessante e bem explicada...legal!!

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  4. OBRIGADA A TODOS! Faço com carinho, atenção e com a preocupação de trazer informações relevantes e novas para todos!
    kris

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