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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

VANITIES


 MEMENTO MORI

A morte é um tema que tem sido fonte de inspiração para os filósofos, os poetas e os artistas de todas as áreas. Fonte de temores, angústias e tristezas, mas também certeza única que o homem pode acalentar neste mundo onde reina a transitoriedade, o tema da morte é, paradoxalmente, um dos mais fecundos e tem gerado, ao longo dos séculos, as mais variadas figuras, esculturas, pinturas, objetos decorativos, jóias, fotos e gravuras.  Um dos estilos mais interessantes destas manifestações, que gerou uma categoria particular de natureza morte são os Memento Mori, com as Vanities. Todas estas obras sussurram a frase pungente: Lembre-se que você morrerá”...

Porque um post deste gênero em um blog que fala de maquiagem, beleza, cultura, moda, arte? Exatamente porque quem fala de vida tem que obrigatoriamente acolher a morte, pois são lados da mesma moeda e, as obras sobre a morte possuem uma beleza diversa, intrigante, é impossível não apreciá-las pois nos gritam sua mensagem de vida. Assim, os Memento Mori carregam consigo uma sabedoria que nos coloca dentro de um dos mais descabidos paradoxos: ao mesmo tempo que a morte inserida nestas obras nos lembra que a existência terrestre é vazia e a vida humana precária e frágil, ela também define nosso limite e confere sentido à vida pois ao desvalorizar os prazeres da existência , intensifica-os, ao nos lembrar que são breves.


HANS MEMLING - VANITY - 1485
As Vanities são uma categoria particular de natureza morta. Suas composições alegóricas sugerem que a existência terrestre é vazia, a vida humana é precária e tem pouca importância.


Eu fui o que você é e você será o que eu sou... É o que os esqueletos irônicos nos dizem. «Memento mori» (« Lembre-se que você morrerá »)
JAN DAVID DE HEEM
As danças macabras da Idade Média que aparecem na obra de Hans Holbein le Jeune prolongam este paradoxo aprofundando-o tragicamente. As rondas fúnebres são um aviso que a festa não durará. Devemos estar prontos para o gozo da vida ao mesmo tempo em que devemos estar prontos para deixá-la. Ao misturar vivos em mortos na mesma farra, as danças macabras personalizam a morte inserindo-a na vida. Tecem entre estas duas realidades um laço íntimo e sugerem uma cumplicidade, como se a morte fosse uma parceira com a qual se deva saber dançar.


Durante o Renascimento as Vanities desapareceram, para ressurgirem vigorosamente no século XVII figurando uma presença da morte de modo mais íntimo e pessoal. As Vanities tomam conta da vida em sua integralidade, sublinhando cada instante com a mensagem da fragilidade da vida. Caravaggio representou a vaidade do saber com seu São Jerônimo escrevendo sob o olhar de um crânio colocado sobre um livro aberto. A obra espanhola Post Hominem Vermis mostra um defunto decomposto ao lado do qual está uma inútil coroa. Giovanni Martinelli representou a vaidade dos prazeres com a morte que vem à mesa e surpreende seus convivas suscitando medo e repulsa ou ainda a obra de Genovesino que evoucou Cupido (o símbolo do amor) dormindo serenamente e descansando negligentemente o braço sobre um crânio que ostenta maxilares abertos e vorazes. 

GENOVESINO - CUPIDO ADORMECIDO
Longe de serem representações estéreis, as Vanities são um duplo chamado à vida. A morte, por mais medonha que seja, seria apenas um hífen indispensável à vida.

Com o século das luzes este hífen indispensável desapareceu.  Culto da razão, ateísmo e desenvolvimento das ciências reduziram o homem, paulatinamente, a um fenômeno natural. A morte deixou de ser um mistério metafísico que as Vanities tentavam compreender. Ela se tornou um problema cientifico, técnico, psicológico. Inclusive ela jogou as próprias Vanities em um profundo purgatório até o século XX. Após a Segunda Guerra, o muro das ilusões começou a cair. Para muitos, este século é o século que extinguiu os paraísos profanos, as religiões laicas e os deuses mundanos (na historia e na política). 

Os ideais positivistas e o culto do progresso que deveriam exorcizar a morte e desvalorizar as Vanities, vacilaram. A morte foi transformada em objeto de consumo, de mercado... tanto que nestes últimos anos observa-se um ressurgimento das Vanities. Mas, se os artistas contemporâneos levaram novamente a sério o tema da morte, eles também romperam o laço que, nos clássicos unia a morte com a vida. Esta preocupação em encenar o nada aparece em Schädel, pintura a óleo na tela de Richter, que mostra um crânio caído em um fundo de cor fria. A vibração que anima o quadro parece desmaterializar o crânio, e , por extensão, a morte, subtraindo-lhe qualquer possibilidade de parecer real e ligada à vida.  Mapplethorpe vai além. Em seu auto-retrato de 1988, ele mostra seu rosto já marcado pela doença, o olhar perdido, segurando uma bengala que possui um crânio que nos fixa e que está esculpido na parte superior da bengala. 

ROBERT MAPPLETHORPE - SELF PORTRAIT
O simbolismo é evidente: condenado pela doença, o artista sugere que já está morto e que esta morte nos olha assim como o crânio sobre o qual ele se apóia nos encara, um prefigurando o outro. Aqui não existe referencia à vida. A morte que se apóia sobre a morte nos fixa e elimina qualquer esperança ou horizonte. 

Com Damien Hirst, esta contaminação da vida pela morte e este retorno da vanité clássica são ainda mais assumidos e afirmados. A serigrafia For the Love of God, Laugh que representa um crânio coberto de diamantes refere-se aos atributos clássicos das Vanities: um crânio decorado com símbolos próprios da riqueza material. 

FOR THE LOVE OF GOD
Assim, vida e morte estão presentes nesta obra mas onde as Vanities clássicas opunham os dois termos, religando-os, Damien Hirst os funde, abolindo suas diferenças. Ele identifica e iguala, com um mesmo gesto, a morte a vir e a vida presente reduzida à acumulação das riquezas mundanas. Hirst se revela absolutamente clássico em seu objetivo, retomando a essência mesmo do ‘memento mori’ e radicalizando-o. Sua mensagem seria um frio reflexo de nossos tempos, uma denúncia de nossa paixão pelos ídolos de ouro? -: “Lembre-se que você já está morto(a)”.



 Até o século XIV, a expressão da morte e das Vanities – ou seja, a atitude humana face ao seu próprio desaparecimento-  resumia-se a um tipo de discurso, aquele do sentimento da morte conforme à doutrina cristã: a morte não invalida a vida, ela fecha um ciclo que abre um tempo de vida eterno, ainda que a consciência do vazio, do nada após a morte não possua um sentido. A representação das imagens da morte neste período é abstrata, e não é significativa ao ponto que  possamos falar de uma orientação macabra. Até o meio do século XIII, as únicas figuras macabras são aquelas que ornam as sepulturas. E estas se encontravam bem distanciadas dos defuntos: assim como os mortos, a morte não se mostrava.




 A realidade do cadáver era evacuada: quando os finados ornavam os túmulos, eles eram representados de uma forma idealizada, com esculturas que se mostram em pé, com representações belas, jovens, acompanhadas com todos os atributos da gloria. O defunto de Alienor d´Aquitaine,  exposto na Abadia real de Fontevrault, é um bom exemplo : o cadáver é tratado de forma conveniente, com traços de esqueletos e a sua decomposição é uma idéia metaforizada, mostrada através da decomposição das roupas..

Um século mais tarde, o encontro entre os vivos e os mortos acontece com terror: os três nobres representados na iluminura fogem quando encontram seus fantasmas decompostos, dos quais se separam apenas por sepulturas.
A evolução do estilo vai neste sentido: o do afrontamento dos mortos e dos vivos impotentes. Neste afresco do fim do século XV, vemos o sorriso sardônico dos mortos, felizes de carregar consigo os vivos que não desejam morrer:

DICT DES TROIS VIFS ET DES TROIS MORTS - PETITES HEURES DU DUC DE BERRY - Anônimo
É este combate que desde o inicio se mostra perdido para os vivos que marca de forma significativa a evolução das consciências e que constitui o fundamento de um novo estilo: a dança macabra. A primeira dança macabra conhecida data de 1425 e ornava os muros do cemitério dos Santos Inocentes, que não existe mais hoje. Conhecida através das gravuras que foram editadas por Guyot Marchant (1485), esta dança encena mortos que levam os vivos na ordem da dignidade social destes: o papa, o imperador, o cardinal, o rei, o duque, o patriarca, o chanceler, o arque bispo, o cavaleiro, o bispo, o escudeiro, o abade, o astrólogo, o cânone, o mercador, o usurário, o médico, o apaixonado, o advogado, o menestrel, o promotor, o carrasco, o Pelegrino, o pastor, o sapateiro, a criança, o eremita, o aventureiro, o idiota... Nas ilustrações vemos os primeiros destes tantos personagens levados pela morte:

DANSA MACABRA DO CEMITÉRIO DOS SANTOS INOCENTES, 1485, PARIS.
Na versão gravada, cada vinheta é acompanhada por um dialogo entre a morte e aquele que ela vem buscar, e a ênfase se encontra na recusa que os vivos mostram em partir e na determinação da morte de levá-los. Eis, por exemplo, o primeiro diálogo entre o papa e a morte:

A Morte

Você que está vivo, tenha certeza
Ainda que demore, você dançará comigo. Apenas Deus sabe a data!
Reflita então no que você vai fazer.
Sr papa, sereis o primeiro, visto o título de digno senhor, sereis honrado por isto, pois toda honra é concedida aos grandes soberanos.



O papa

Infelizmente eu tenho que conduzir a dança.
Porque logo eu que sou a encarnação de Deus na terra tenho que ser o primeiro?
Tive a mais alta dignidade como santo Padre da Igreja, mas a morte vem me buscar, assim como a todos os outros.
A morte guerreia com todos. O homem vale pouco, as honras do mundo são vãs e passam rápido.

A morte inverte as hierarquias e não economiza ninguém: este é o leitmotiv das danças macabras. Ao longo dos anos, as categorias sociais representadas foram mudando, mas sempre preservam um discurso sobre a hierarquia em vigor na sociedade e a morte sempre é a vencedora desta ronda macabra. A figuração desta morte, inicialmente reduzida a um esqueleto bem esquemático, evolui também de uma dança macabra à outra e tende a uma representação bem mais realista do esqueleto, algumas vezes até do cadáver. Isto pode ser visto na obra de Hans Holbein le jeune, 1524/1525 inserida em 1538 nos simulacros e historias das faces da morte criadas para ilustrar as citações da Bíblia e comentários:


HOLBEIN, A GRANDE DANSA MACABRA, 1524 -1525
 A primeira edição deste texto, de 1538, estava ornada com 41 gravuras. Em 1545, uma reedição acrescentou 12, dentre estas 8 possuíam o tema da dança macabra. Três exemplos destas gravuras estão apresentados acima, com a confrontação de um vivo e de um morto: a morte faz erupção dentro de uma vida em ação e leva o papa no momento em que este estava coroando o imperador, indicando, com esta aparição, que o poder temporal, ainda que ilustre, nada pode frente à Morte, que humilha o papa em suas funções. É ainda ela que abala uma família quando leva um de seus filhos ou que vem pagar o médico com uma moeda bem particular.
 Encontramos a mesma evolução em direção a uma morte cada vez mais agressiva e cada vez mais realista nos Triunfos da morte: o primeiro triunfo conhecido, o do Campo Santo de Pisa, atribuído a Buffalmacco (não representado), encena a Morte cavalgando e matando os seres vivos.

BUONAMICO BUFFALMACCO - O TRIUNFO DA MORTE
A morte é ameaçadora, mas se integra ainda dentro de um ciclo cristão: face ao triunfo, encontramos um último julgamento que restabelece a morte em uma perspectiva escatológica. Um século mais tarde, a morte ainda é agressiva e lança suas flechas mortais contra os vivos que agonizam: no triunfo de Palermo representado abaixo, a vista do detalhe mostra bem o realismo dos rostos sofredores.

GASPARE PESARO - TRIUNFO DA MORTE, PALERMO, 1445 - 46  

O trabalho da morte não é mais abstrato, e no século seguinte o Triunfo da morte de Bruegel completa esta evolução: se a figura central da morte perdura (representada cavalgando no alto e à direita), ela está acompanhada por um exercito de cadáveres que vêm invadir o espaço dos seres vivos:


BRUEGEL - TRIUNFO DA MORTE, MADRID, MUSEU DO PRADO - C. 1562
           O desenvolvimento de pranchas anatômicas ajudou os artistas a representarem os cadáveres com maior precisão: estas três pranchas do grande livro de anatomia de Vésale são interessantes, pois mostram quão grande era o grau de realismo presente na representação do corpo humano. 


PRANCHAS ANATÔMICAS - JAN VAN KALKAR, 1543, em VESALE, DE HUMANI CORPORIS FABRICA, BÂLE, 1543.
A morte entra na vida e cessa de ser representada em contextos cristãos: aqui ela se exprime a partir de um ponto de vista humano: o mesmo que presidirá as estranhas figuras macabras do século XVI e aquelas que representam a Moça e a Morte:


 As Três Idades da Mulher e a Morte - Viena e Bâle - 1510, 1517 e 1517.

Tradução livre por KRIS XIVA dos textos:
-DE POMPÉI À DAMIEN HIRSTDES MORTS BIEN VIVANTS - par Paulin Césari - Le Figaro
-GÉNÉALOGIE DES VANITÉS - par Karine Lanini


6 comentários:

  1. Le 24 octobre 2011 22:10, Kris Xiva a écrit :

    Bonjour, Karine, je vous écris pour vous dire que j´ai beaucoup aimé votre blog, j´en ai même traduit une partie en portugais (du Brésil) pour poster dans mon blog, j´espère que vous ne serez pas fâchée avec moi.. Je vous laisse mon link:
    http://boudoirdamaquiagem.blogspot.com/2011/10/vanities.html
    amicalement,
    kris xiva

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  2. Bonjour,

    Au contraire, je suis contente quand on reprend des éléments de mon travail, qu'on le complète et qu'on le fait circuler.
    C'est marrant, parce que je me disais il y a vraiment très peu de temps qu'il faudrait que j'ajoute l’autoportrait de Mapplethorpe à ma galerie : et vous l'avez fait !

    Amicalement,

    Karine

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  3. Parabéns pelo excelente post!
    Gostei muito, particularmente do auto-retrato de Mapplethorpe, que não conhecia! Espero que não se importe se o colocar na minha Feira :)

    abraço
    V

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  4. Cara Virgínia, seu blog é maravilhoso, claro que pode colocar o auto-retrato de Mapplethorpe em seu blog maravilhoso... que aconselho a todos:
    http://feira-das-vaidades-mil.blogspot.com/

    bjss

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  5. Em 1348 a europa toda se viu às voltas com a terrível epidemia da Peste Negra - com a Morte ceifando avidamente, sem respeitar idade ou formosura, nobreza ou servidão... Era o surgimento do Trionfo della Morte, das Vanitas, do Ubi sunt... Gostei do seu blog. Um abraço Ana, Pelotas,RS

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  6. O LINK PARA O BLOG DA KARINE: http://karine.lanini.free.fr/genealogievanite.htm

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