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quarta-feira, 17 de abril de 2013

HISTÓRIA DO ESPELHO



Segundo Cocteau, « O espelho deveria refletir bastante antes de mostrar nossa imagem »... Julgado útil pelos filósofos gregos por nos oferecer conhecimento sobre nós mas maléfico pela igreja medieval, este objeto aparentemente anódino está repleto de força simbólica.


Nos tempos pré-dinásticos, os egípcios utilizavam placas de mica para se observarem.  Posteriormente, espelhos de cobre foram criados. No Ocidente, desde os primeiros séculos de nossa era, os espelhos eram feitos de prata e aço polido. 

ESPELHOS ANTIGOS - EGÍPCIO, ETRUSCO E ITÁLICO

O espelho antigo era um pequeno disco de bronze arredondado, que era colocado em um pé ou munido de uma alça de vinte centímetros de diâmetro. Segundo Sócrates, este auxiliar do “Conheça-te a ti mesmo” nos conduziria à vitória contra nossos vícios e nossas fraquezas. Assim o filósofo propunha um espelho aos embriagados para que sua imagem repulsiva os dissuadisse de continuar bebendo. Para Sêneca, o espelho levaria o homem a harmonizar seus atos com sua imagem. O reflexo de nossos próprios cabelos brancos nos prepararia de uma maneira útil para a morte. Mas, na prática, os homens desviaram a lição do espelho. Em vez de se enxergarem, passaram a se admirar e contemplar. Na mitologia, Narciso cede à contemplação de seu reflexo na água e, apaixonado por si próprio, morre.

NARCISO DE CARAVAGGIO

A Idade Média conheceu o espelho de aço polido, comercializado por mercadores e o de vidro. Ambos oxidavam e manchavam rapidamente. Os indivíduos mais ricos protegiam seus espelhos em estojos de marfim ou veludo. Os espelhos pequenos tinham um cabo e os maiores podiam ser apoiados em um pé. No século XIII, a combinação do vidro e da folha de estanho permitiu um reflexo melhor, menos deformado e, no século XIV, o vidro foi algumas vezes substituído pelo cristal.

Na Antiguidade e na  Idade Média os espelhos eram geralmente feitos com estanho ou bronze. Eram objetos frequentemente considerados como ‘espelho mágico’ ou ‘objeto bizarro’ por causa das deformações do real (por causa dos ingredientes com os quais eram fabricados, os espelhos não refletiam corretamente as imagens).


Para a Igreja, a utilização do espelho possuía um aspecto simbólico duplo. Por um lado, os teólogos cristãos recomendavam aos fiéis que estes se olhassem pois reconheciam nesta introspecção uma função moral salutar. Por outro lado, eles viam no espelho um objeto condenável, por tornar o real algo complexo, por espelhar uma imagem desconcertante deste.

 O espelho permite inverter, aproximar, distanciar, fragmentar, aumentar... Seus poderes mistificadores enganam o olhar e por isso, a Inquisição, braço justiceiro da Igreja, puniu este objeto. Em 1321, Béatrice de Plannisoles foi acusada de heresia, adultério e feitiçaria. A jovem compareceu diante do bispo de Pamiers. Dentre ‘os objetos suspeitos que ela possuía para fazer malefícios' a acusação deteve, dentre outros, um espelho, considerado equipamento comum das feiticeiras. A Igreja acreditava que as feiticeiras encarceravam os demônios dentro de espelhos. Acreditava ainda  que o reflexo do espelho era capaz de provocar uma hipnose ou estado de transe. 

O impacto do brilho da luz impediria de ver os objetos e captaria a atenção das pessoas para o interior, tornando então possível as intuições sobrenaturais vindas do diabo e a partir deste momento, interpretações, revelações abusivas, encantamentos, possessões ocorreriam.  O uso do espelho era então considerado algo maléfico. O que não impediu que grandes príncipes, dentre os quais a rainha Catherine de Médicis, recorressem à adivinhação feita com espelhos para tomar suas decisões políticas.


No Renascimento, com o desenvolvimento dos trabalhos de ótica, os artesãos  alemães e venezianos fabricaram um espelho que foi chamado de ‘cristalino’,  por causa de sua pureza. Ele possuía mercúrio em sua fórmula, o que impedia a imagem de se deformar.  

O espelho se desenvolveu e, de acordo com seu uso, se tornou espelho de muro ou joia.

LES ÉPOUX ARNOLFINI, com o espelho ao fundo

A descoberta do espelho de vidro ocasionou uma verdadeira revolução: a invenção do vidro na vidraçaria veneziana de Murano abriu novas possibilidades para o uso do espelho e  este segredo de fabricação foi mantido oculto durante muito tempo. A Itália conservou a exclusividade desta fabricação e exportou suas obras para o resto da Europa, influenciando o caráter artístico da produção.

 As primeiras molduras para os espelhos italianos eram simples pedaços de madeira extraída de árvores como a castanheira, o álamo e a nogueira. Pouco a pouco foram sendo adaptados ao espírito Gótico e à Renascença, quando foram se tornando mais massivos, com frontões, ornamentações ricas, personagens mitológicos ou outros, pérolas e folhas de acanto.  Ornamentos de bronze, pedras preciosas, ágata eram frequentemente associados à madeira. O espelho mais célebre da época  é o de Marie de Médicis, que está conservado no Museu do Louvre.

Ao longo do século XVII, foram sendo criadas diversas manufaturas em outros países europeus, mas a tradição dos mestres de vidro de Veneza sempre foi seguida.

Assim, o mundo de fabricação do espelho de vidro foi se aperfeiçoando, os fabricantes obtiveram superfícies cada vez maiores e o espelho passou a se tornar um objeto de decoração interior, sendo que as formas e as molduras foram se adaptando ao conjunto da decoração. Pouco a pouco a França passou a impor seu domínio e sua produção de espelhos, desde o reinado de Luís XIII. O Rei apoiou este setor assim como todo o resto da criação artística. Durante o reinado de Luís XIV, foi elaborada a moldura ricamente esculpida ' à la française' com realizações originais feitas por numerosos artesãos, estas obras foram adquiridas por personalidades para a decoração de casas reais e aristocráticas. As criações  mais prestigiosas da época são a concepção da Galerie des Glaces, as salas de aparato de Marly, de Chambord e de Fontainebleau.

GALERIE DES GLACES

Depois do estilo Luís XIV, o estilo Rococó conheceu uma grande popularidade com combinações de madeiras preciosas, escamas, pérolas e latão assim como a introdução do estilo estético oriental (chinoiseries) através de espelhos com molduras feitas de laca, e a  presença de plantas exóticas e ornamentação de pagodes.
ESPELHO LUÍS XIV

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, toda Europa substituiu o estilo pesado e maciço das molduras douradas por ornamentações mais leves e influencias exteriores. Em particular, no início do século XVIII, a influência do francês Daniel Marot (1660-1718) foi observada em diversos países europeus.
A ornamentação das molduras com motivos antigos apareceu na época neoclássica. A imperatriz Joséphine encomendou um conjunto de espelhos de etilo Empire, que corresponde a esta moda.

Após a metade do século XIX, a fabricação de espelhos foi sendo feita através da imitação dos estilos precedentes. Cada vez mais os ornamentos foram sendo fabricados com gesso e estuco dourado, o que permitiu uma produção em série e de menor qualidade. Apenas Veneza conservou a tradição dos espelhos de vidro de estilo rococó.

ESPELHOS VENEZIANOS


Com a Art Nouveau, surgiu um estilo original, pessoal, oriundo do espírito da época e não uma mera imitação do passado. Influências chinesas e japonesas apareceram em adaptações pessoais. Os artistas principais, criadores e desenhistas de Espelhos quer marcaram esta época foram  Henri Van de Velde 1863-1957, pintor, arquiteto e desenhista belga, Richard Riemenschneider 1868-1957 e  Bernhardt Pan Kok 1872-1943.



JUDAISMO E ISLAMISMO
Na religião judaica, o espelho tem conotação positiva. Durante o Êxodo as filhas de Israel usaram espelhos de metal para se embelezarem. Durante a fuga do Egito, as mulheres reencontraram seus maridos com espelhos. Moisés aceitava que as mulheres oferecessem espelhos durante a construção do Tabernáculo destinado a receber a Arca da aliança e os objetos sagrados. Nas práticas de luto, os próximos da família devem cobrir os espelhos para que a alma do defunto não seja aprisionada no espelho. Os cristãos também adotaram esta prática. O Islã parece não  dar nenhuma importância particular ao espelho.  Nenhum verso do Alcorão o menciona nem para recomendar ou para repreender e as mulheres muçulmanas o usam sem nenhuma interdição.


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