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domingo, 23 de fevereiro de 2014

PEQUENA CRÔNICA DA BELEZA DOS SÉCULOS XVII E XVIII


Quando pensamos nos modos de vestir e de se maquiar dos séculos XVII e XVIII, lembramos imediatamente de artifício e exagero! Não é para menos, visto que na corte, quem ditava a moda eram personagens grotescos, amarrados em seus espartilhos, maquiados em excesso... Pelo menos foi esta imagem que marcou a história e não podemos negar que os fatos realmente se desenrolaram desta forma.



BARROCO
 Desde o fim do século XVI, o barroco se evidenciara e uma novela estética foi ganhando as artes e a filosofia. Descartes passou a enxergar o mundo como uma mecânica, com engrenagens, cordas, polias... Era uma época na qual as pessoas ainda viajavam com as janelas fechadas, não apreciavam a paisagem, detestavam a natureza, a desordem e os camponeses. A natureza era tida como algo insuportável, medonho, apenas jardins com perspectivas infinitas geometricamente elaborados eram tolerados. Da mesma forma, o corpo humano era estruturado, fechado. Os bustos deviam ser extremamente apertados, o pescoço também. As pessoas se escondiam e se protegiam em uma época cheia de artifícios.



NASCIMENTO DA PALAVRA MAQUIAGEM
Enquanto a corte tendia a uma crescente moralização, o uso de artifícios passou a simbolizar um valor emancipador: a corrente preciosa tão criticada por Molière exaltava a inteligência do espirito e o refinamento do corpo. A palavra ‘maquiagem’ nasceu nesta época, mas em um sentido pejorativo: maquiar significava esconder o jogo, enganar.

Desde a antiguidade grega, as pessoas usavam óxido de chumbo (produto extremamente tóxico) no rosto, no pescoço, nos braços e na garganta. No inicio do século XVIII, as preciosas passaram a fabricar seus próprios produtos com gordura de cordeiro e produtos orientais. “Banhos de água de bezerro, pomadas de água destilada de flor de lírio, de flores de fava, sucos de limão destilados em banho-maria e óleo de talco....” as pessoas da época inocentemente acreditavam que produtos brancos tornariam a pele mais branca...

A TEZ BRANCA
A pele branquíssima era importante, pois evocava o efeito de estátua e, por extensão, lembrava a imagem da Virgem Maria, tão cultuada na Idade Média. Ter a pele branca significava possuir um rosto puro, sem manchas ou cicatrizes. Por esta razão, as “Preciosas” branqueavam a pele e não se bronzeavam: durante os passeios ao ar livre, elas usavam máscaras que seguravam pelos dentes, o que também evitava as conversas.



AMOR PELA COR VERMELHA
Durante o reinado de Luís XIV, a cor vermelha passou a significar o amor, a emancipação, mas também o adultério, a falta de pudor. Em uma época de desenvolvimento do ateísmo, de abandono do culto à Virgem Maria, as pessoas começaram a valorizar a ostentação e o culto da beleza.

O REI FRANCÊS
A influência real era imensa: o rei regia a ópera, a dança , o teatro, ele era inclusive o primeiro ministro da cultura. Luís XIV fez de seu reinado um reinado da estética. Ele dançava maquiado de vermelho e de rosa e os homens o imitavam, colocava pintinhas artificiais de tecido feitas de tafetá cortado em forma de cometas, estrelas, lua. Todos os olhares e atenções convergiam para a figura do rei sol e, sob as luzes das velas, os espelhos refletiam infinitamente esta corte que vivia permanentemente de forma teatral.

Representação do REI SOL vestido com trajes da época


A IGREJA CONDENOU A MAQUIAGEM
Todo tipo de artificio era condenado pela igreja, sobretudo pela Companhia do Santo Sacramento que pregava o pudor e a sujeira. As mulheres devotas e as que sofriam por amor não se maquiavam. Deviam mostrar-se sujas, negligenciadas, despenteadas. Quando passavam usar novamente batom e blush, era um sinal de que o desejo estava de volta às suas vidas. Na obra “Escola de Mulheres” encontramos uma jovem que nunca podia se maquiar para seu marido, pois era pura e virgem. Quando o rei se casou com Mme de Maintenon, havia menos artifícios e menos festas, mas com o regente, os prazeres e as festas voltaram a fazer parte da vida da corte.

A TOILETTE DA MULHER NOBRE
A vida da corte era cansativa: a mulher nobre tinha o dever de estar sempre bela: devia fazer diversas toilettes. Uma ao acordar, uma segunda após o almoço, depois deveria cear às 2 horas, encontrar seu amante, e deixá-lo às 7 da manhã. E deveria também se maquiar para esconder as noites mal dormidas!!

FALTA DE HIGIENE
“Para esconder a falta de higiene, diversos tipos de perfumes eram usados: perfumes florais, de musgos e podemos imaginar que, embaixo de tanta maquiagem a higiene deveria ser catastrófica”...  Até o século XV, as pessoas se lavavam com panos molhados, raramente tomavam banho nos rios ou lagos e, quando o faziam, permaneciam vestidas. Os dentes eram escovados com pós abrasivos de corais, ostras ou com vinho branco.

IDEAL DE BELEZA
O ideal de beleza seguia o modelo italiano promovido por Catherine de Médicis: a mulher com formas, seios volumosos expostos em profundos decotes, coxas largas... A sociedade evoluiu, as pessoas passaram a se alimentar melhor e as mulheres mais gordas, fecundas e exuberantemente opulentas começaram a ser admiradas ainda que as cinturas e os joelhos finos fossem os preferidos. La Montespan, deformada pela gravidez, bebia vinagre para não engordar. Os cabelos loiros também continuavam na moda. O corpo e a natureza eram construídos, arranjados e maquiados: as mulheres, com seus espartilhos apertados sofriam desmaios e problemas de circulação eram frequentes, devidos à contenção do corpo. Como em um gigantesco teatro, esta comédia da aparência passou a ser acentuada no século XVIII.




IDEAL BARROCO
O barroco foi o período mais radical para a beleza: os músculos que evocavam o esforço deviam ser escondidos. Por esta razão, as pessoas passaram a conter seus corpos. Inclusive até os penteados eram feitos com maquetes de madeira. Em suma, as pessoas se apertavam tanto que dificilmente conseguiam mexer. Até  sapatos com saltos especiais foram concebidos, os homens usavam ancas falsas, e falsas panturrilhas eram colocadas dentro das meias, almofadas gigantes eram costuradas nos ombros das camisas assim como sachets perfumados nas axilas... O personagem Casanova de Fellini nos dá uma ideia da época, na cena em que tira a roupa e mostra o empacotamento de seu corpo....
Em uma época em que as orgias e intrigas da corte imperavam, as pessoas abusavam excessivamente do trompe l´oeil. Tanto o corpo quanto o rosto, a linguagem e os sentimentos eram maquiados. Todos usavam perucas brancas que eram enfarinhadas com pós de osso. A cor que marcou o apogeu desta ilusão foi o vermelho, verdadeiro objeto de obsessão.

Versalhes


A COR VERMELHA
Acreditava-se na época que a cor vermelha mascarava a velhice e refletia a sensualidade. Ela era usada inclusive na face dos mortos. As mulheres também a usavam até para dormir. As propagandas exaltavam o vermelho vegetal da Demoiselle Latour “que unia ao perfume da rosa, seu colorido mais brilhante, em todas as suas nuances” (1788); « o vermelho maravilhoso de Jacquelin, rua do Bac, cosmético composto por dois líquidos: um primeiro que branqueava, o segundo que fomentava o encarnado mais lindo que existia” (1742); o célebre “Vermelho da Rainha, que poderia ser encontrado na boutique do Ser Dubuisson, rue des Ciseaux" (1770).

 No fim do século XVIII, a corte comprava cerca de mil potes de maquiagem vermelha! Lady Montagu descreveu Versalhes como uma assembleia de ‘carneirinhos despedaçados’... As pessoas também ressaltavam com a cor azul as veias da testa, das têmporas e da garganta a fim de mostrar o sangue azul aristocrático...



ENCICLOPEDISTAS E A EXALTAÇÃO DA NATUREZA

Pouco a pouco, o ano  de 1750 marcou uma mudança. Os Enciclopedistas começavam a denunciar o excesso de artifícios. A filosofia, a arte, o romance e a pintura passaram a ocupar as mentes. A psicologia nasceu. Em 1752 Rousseau abandonou a espada e a peruca, passando a promover o corpo natural e os verdadeiros sentimentos, exaltando os seios generosos das amas de leite e das mulheres simples do campo e assim outros critérios de beleza começaram a surgir.

As burguesas passaram a imitar as aristocratas ao usar batons, ainda que de forma moderada. O vermelho era um artifício que até então marcara a aristocracia e o poder que decorria desta. Através, porém, de Marie-Antoinette mudanças diversas foram sendo esboçadas. A rainha loira possuía e ostentava uma beleza pouco afetada, bem próxima dos ideais de Rousseau e apregoava a alegria simples. A revolução francesa entrou na orquestra decapitando as perucas esfarinhadas dos nobres e baniu seus cosméticos vermelhos. Com a queda dos nobres, todo universo das aparências foi destruído para dar espaço ao novo ideal de beleza.

Tradução e adaptação: Kris Xiva da obra ''Le fard cache les nuits de folies'' de Dominique Paquet – L'Express 

Revisão: Cláudia Inês Rocha Vieira

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